Call for papers: Revista Magma

Classificação
Chamada
Data inicial
qui, 04/02/2026 - 00:00
Descrição

PRAZO: 30 de abril de 2026.

Magma é uma revista acadêmica de publicação eletrônica anual do programa de Pós-Graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP). Sendo gerida e pensada pelos alunos do PPG, a Magma publica trabalhos de pós-graduandos stricto sensu em qualquer etapa de formação: mestrandos, mestres, doutorandos e doutores.

Para o número 22 de nossa revista, estamos com chamada aberta, até dia 30 de abril, para as seções ENSAIOS TEMÁTICOS (dossiê) e TEMA LIVRE.

Avisos importantes:

A Magma não opera em modelo de fluxo contínuo. Todas as submissões devem ser feitas dentro do prazo da chamada aberta. Os trabalhos enviados fora deste período não serão avaliados.

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DOSSIÊ TEMÁTICO - O ENGAJAMENTO NA LITERATURA: PASSADO E PRESENTE


Quais são as formas e qual a eficácia do engajamento na literatura?

Tomando essa questão como ponto de partida, a Magma convida os pesquisadores de literatura e teoria literária a retomarem o conceito de engajamento como parte do vocabulário crítico para (re)pensar a produção cultural do passado e do presente. No âmbito literário, a retomada do conceito instiga a reflexão sobre a emergência de sensibilidades políticas reveladoras de contradições sociais e da experiência de grupos subalternizados. Paralelamente, torna-se oportuno investigar as estratégias de legitimação do fazer literário pelas demarcações sócio-biográficas dos autores, além de indagar pela influência de tal literatura sobre seu público, ou como as demandas políticas — ora por uma redistribuição material ora pela valorização simbólica de determinados grupos — refletem-se nas obras.

Em diálogo de 2023, Tiago Ferro e Luís Augusto Fischer (2025) contribuíram para o resgate da noção de engajamento como chave interpretativa de romances contemporâneos reivindicados como produções artísticas identitárias. Em artigo do mesmo ano, Leyla Perrone-Moisés também propôs compreender a aparição de reivindicações políticas na literatura contemporânea como um prolongamento da literatura engajada do século XX. Há grande diferença entre as implicações que os autores citados extraem dessa aproximação, testemunhando a natureza ainda aberta e polêmica dessas obras. Entretanto, talvez seja uma virtude do deslocamento que as obras do presente surjam reconhecíveis diante de uma tradição complexa, o que torna oportuno revisitar o conjunto de reflexões críticas e formas literárias ensejadas pela literatura engajada. Nesse sentido, mapear os pontos de contatos e as diferenças entre os vários momentos da produção engajada no país pode jogar luz sobre sua dinâmica social e os tipos de mobilização política nele empreendidos.

Por outro lado, a retomada da categoria de engajamento ajuda a refletir sobre os pressupostos do debate. Afinal, tanto no passado como no presente, abundam as críticas à literatura engajada como uma produção esquemática, não raro acusada de ter reduzido valor literário. Veem-se assim reinstauradas aporias semelhantes às que, no século XX, marcaram a recepção de romances operários e socialistas. A situação atual da literatura, ao mobilizar categorias como gênero, raça e sexualidade, permite que sejam atualizados e reinterpretados, em diálogo crítico com a produção contemporânea, conceitos como o de “desvio” ideológico proposto por João Luiz Lafetá (2000 [1974]) acerca do romance de 1930; ou o de “antiliteratura” de Arthur Vergueiro Vonk (2021), que, em discussão com Lafetá, descreve a rejeição consciente às formas socialmente desinteressadas de escrita por autores brasileiros engajados no mesmo período.

Falar em “engajamento” implica perceber o tensionamento em relação à literatura institucionalizada e seus modos de prestígio, articulado à irrupção de autorias e temáticas que reivindicam, não sem se apropriar das formas tradicionais do romance e da poesia, por exemplo, uma posição explicitamente demarcada. Se essa determinação geral vale para as obras engajadas de ontem e de hoje, em relação à literatura contemporânea, a retomada do conceito de engajamento contribui para que se obtenha uma compreensão mais concreta de suas formas e um ancoramento mais nítido de seus produtores na realidade social, como também defendem, em outro contexto, Ivana Perica e Aurore Peyroles (2025) ao retomar a distinção entre “a política” e “o político” para o campo literário.

Ao lado de reflexões sobre o cenário contemporâneo, convidamos contribuições que revisitem as produções engajadas recebidas, propondo novas leituras e interpretações. A ideia de engajamento permite formar constelações variadas. Entre as referências possíveis, pode-se revisitar a experiência do teatro de agitprop nas décadas de 1920 e 1930, discutida por Raphael Samuel (1985) no contexto inglês e por Philippe Ivernel (1978) no alemão, em que a recusa do teatro como instituição separada levou à reinvenção da cena e à reformulação da dramaturgia e do trabalho do ator. Pode-se citar ainda a tentativa de democratização da produção cultural levada a cabo pelos Centros Populares de Cultura entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1960, discutida por Ferreira Gullar (2002 [1964; 1969]) e Roberto Schwarz (2008 [1970]). Também interessam as continuidades entre esses momentos históricos e o presente, como a relação entre a poesia marginal e vozes líricas contemporâneas ou o diálogo da Brigada de Teatro do MST com a obra de Augusto Boal, descrito por Rafael Villas Bôas (2013).

Os modelos acima arrolados não podem ser explicados satisfatoriamente sem uma reflexão acerca dos procedimentos estéticos que o questionamento dos sentidos, dos temas e das funções da literatura torna possível e que a noção de engajamento permite conceituar. Ao retomar a ideia de engajamento, interessa observar como a incorporação de novos conteúdos ligados à problemática social e a busca por outras relações entre autor, obra e público podem repercutir diretamente na fatura das obras, estimulando a revisão das linguagens artísticas disponíveis e a invenção de novos procedimentos.

Magma propõe esta chamada temática com o objetivo de receber contribuições que considerem o engajamento não como um elemento datado, mas como um conceito ainda relevante, capaz de lançar nova luz sobre o contexto atual da arte e da cultura. Seja por meio de aproximações, contrastes ou releituras, espera-se que o engajamento permita examinar a relação entre pesquisa estética e empenho social, bem como as diversas tentativas de dotar a produção cultural de um alcance extraliterário e de produzir efeitos sobre a realidade social.
 

Eixos temáticos propostos

No âmbito desta chamada temática, serão aceitas contribuições que versem sobre:

●       O engajamento na literatura;

●       A relação entre a literatura engajada e as noções de classe, gênero, sexualidade e raça;

●       As formas da literatura engajada na poesia, no teatro e no romance;

●       Literatura e política no Brasil e em diferentes conjunturas nacionais;

●       Tensões conceituais entre engajamento, vanguarda e autonomia.


Além disso, a Revista Magma convida os pesquisadores a submeterem trabalhos de temática livre que contemplem os segmentos de Literatura, Crítica Literária e Teoria da Literatura.

Os artigos para o número 22 devem ser enviados até 30 DE ABRIL DE 2026, através do sistema da Revista: https://www.revistas.usp.br/magma/about/submissions.

Autores que nunca tenham submetido textos pelo sistema utilizado pela revista (OJS/PKP) deverão se cadastrar, clicando no link (https://www.revistas.usp.br/magma/user/register) e seguir as instruções.
 
 
Bibliografia:

FERRO, Tiago; FISCHER, Luís Augusto. Engajamento e liberdade. In: FERRO, Tiago. Prisão perpétua. São Paulo: Boitempo, 2025.
GULLAR, Ferreira. Cultura posta em questão / Vanguarda e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.
IVERNEL, Philippe. La problématique des formes dans l’agit-prop allemande ou la politisation radicale de l’esthétique. In: AMEY, Claude et al. Le théâtre d’agit-prop de 1917 à 1932. v. 3. Lausanne: La Cité/L’Age d’Homme, 1978. p. 52-70.
LAFETÁ, João L. 1930: a crítica e o modernismo. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000.
PERICA, Ivana; PEYROLES, Aurore. Who’s afraid of the political novel? An introduction. Open Research Europe, jun. 2025. doi: 10.12688/openreseurope.19915.1
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Literatura engajada. Criação & Crítica, n. 35, p. 370-383, 2023.
SAMUEL, Raphael. Theatre and Socialism in Britain (1880-1935). In: SAMUEL, Raphael; MACCOLL, Ewan; COSGROVE, Stuart (orgs.). Theatres of the Left: 1880-1935. London; Boston: Routledge & Kegan Paul, 1985. p. 3-76.
SCHWARZ, Roberto. Cultura e política, 1964-1969. In: SCHWARZ, Roberto. O pai de família e outros estudos. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 70-111.
VILLAS BÔAS, Rafael. MST conta Boal: do diálogo das Ligas Camponesas com o Teatro de Arena à parceria do Centro do Teatro do Oprimido com o MST. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, v. 57, p. 277-298, 2013.
VONK, Arthur V. Literatura conflagrada: Jorge Amado, Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade na trincheira dos anos 1930. 2021. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.